Um rio atravessa uma cidade que convive historicamente com inundações.
Em determinado evento, uma das margens foi danificada. Era preciso recuperar a estrutura e restabelecer as condições anteriores.
A solução adotada foi conhecida: concretar a margem que havia sido destruída, reproduzindo a lógica já existente na outra margem.
A decisão, entretanto, não foi consensual. Houve manifestações e questionamentos sobre a alternativa escolhida. A discussão colocava outra possibilidade sobre a mesa: em vez de simplesmente reproduzir a solução existente, considerar o funcionamento do rio e trabalhar a margem danificada com soluções baseadas na natureza.
Essa possibilidade não foi adotada.
A margem foi concretada.
Na inundação seguinte, a primeira curva do rio depois da intervenção foi completamente destruída. A água ganhou força e velocidade e avançou sobre áreas que até então não eram atingidas pelas inundações.
O que chama atenção nesse caso não é apenas o dano provocado pela nova inundação. É a sequência entre a decisão tomada e aquilo que aconteceu depois.
Diante de um problema, a solução mais conhecida costuma parecer também a mais segura. Ela já foi utilizada, é tecnicamente familiar e responde diretamente ao que precisa ser reconstruído.
Mas uma solução conhecida não é necessariamente uma solução adequada para aquele lugar.
Quando se intervém em um rio, não se está tratando apenas da margem que precisa ser recuperada. A intervenção altera relações que envolvem a água, a velocidade do escoamento, as margens e os espaços que o rio ocupa durante uma inundação.
Por isso, talvez a pergunta não devesse ser apenas como reconstruir a margem destruída.
Talvez fosse necessário perguntar o que o rio precisa naquele trecho e quais consequências uma intervenção em uma margem poderia produzir sobre as demais.
Essa diferença parece pequena, mas muda a natureza da decisão.
Uma decisão pode partir do problema que está diante dos olhos e buscar restabelecer aquilo que foi perdido.
Ou pode partir do funcionamento do sistema e procurar uma solução que reduza os problemas que podem surgir depois.
No primeiro caso, a intervenção responde ao dano.
No segundo, procura também compreender o que pode acontecer como consequência da própria intervenção.
O desafio não está em abandonar as soluções conhecidas. Está em não transformá-las em resposta automática.
Em territórios sujeitos a eventos extremos, aquilo que parece resolver um problema em determinado ponto pode deslocar ou ampliar o problema em outro.
Por isso, antes de decidir como reconstruir, talvez seja necessário perguntar se a reconstrução, da forma como está sendo proposta, melhora as condições do território ou apenas reproduz uma condição que já demonstrou seus limites.
Uma solução pode ser tecnicamente possível, conhecida e executável.
Ainda assim, pode não ser a solução que o território precisa.

